Um homem gay cria um bebé abandonado e tenta protegê-lo do preconceito. Noutro filme, um jovem chega a Manila e começa a vender a própria imagem num clube. São duas histórias filipinas, assinadas por Lino Brocka com dez anos de distância, que o Doclisboa de 2026 colocou diante do público português.

My Father, My Mother: quando a família existe antes do reconhecimento

Em My Father, My Mother, de 1978, o protagonista Coring é um esteticista homossexual que cria um bebé abandonado. O filme não reduz a sua vida a uma grande revelação de identidade: coloca-o numa situação de cuidado, educação e responsabilidade. O conflito surge quando tenta criar a criança num ambiente hostil à homossexualidade e começa a reproduzir, dentro da própria casa, parte das regras sociais que o magoam.

O retrato desafia uma ideia persistente: a de que uma relação familiar só é legítima quando segue o modelo esperado por quem está de fora. A ficha oficial do Doclisboa sobre My Father, My Mother descreve o paradoxo com precisão. Coring quer preservar o filho do julgamento social, mas não consegue escapar totalmente à linguagem desse julgamento.

O filme tem 118 minutos e integrou a retrospetiva Lino Brocka na Cinemateca Portuguesa, com sessão marcada para 21 de outubro, às 19h30, na Sala Luís de Pina. A escolha de uma obra de 1978 para um festival contemporâneo relembra que falar de famílias queer não começou com as séries de streaming da última década.

Macho Dancer: quando o desejo tem um preço concreto

Em Macho Dancer, de 1988, o cenário muda para Manila. Um jovem que chega de uma região montanhosa encontra trabalho como bailarino num clube. As relações de poder não dependem apenas de quem deseja quem: dependem também de dinheiro, trabalho, polícia e capacidade de sobreviver na cidade.

A versão restaurada tem 136 minutos. O Doclisboa anunciou sessões em 17 e 22 de outubro, ambas na Cinemateca Portuguesa. No filme, o corpo masculino não aparece apenas como objeto de fantasia; também é um instrumento de rendimento num ambiente em que a exploração pode estar escondida sob a aparência de entretenimento. A ficha oficial de Macho Dancer apresenta precisamente essa tensão entre espetáculo e transação.

É tentador chamar às duas obras simplesmente “filmes gay”. O rótulo identifica uma parte do conteúdo, mas esconde a diferença entre uma narrativa doméstica sobre paternidade e uma história urbana sobre desigualdade económica.

O que ganhamos ao ver os dois lado a lado?

My Father, My Mother pergunta quem pode ser reconhecido como família. Macho Dancer pergunta o que acontece quando o corpo e o desejo entram numa relação de dependência financeira. Num caso, o conflito atravessa o espaço da casa; no outro, os clubes e as ruas de uma metrópole. A experiência queer está nos dois, mas não funciona como explicação única para os problemas das personagens.

A 24.ª edição do Doclisboa, realizada entre 15 e 25 de outubro de 2026, anunciou 198 filmes de 51 países. Esta retrospetiva não foi um festival dedicado exclusivamente ao cinema LGBT: surgiu dentro de uma programação documental e cinematográfica mais ampla. Para perceber a diferença entre essa proposta e um festival especializado, consulta o nosso balanço do Queer Lisboa 2026.

Um artigo sobre filmes queer para começar a explorar o género pode dar outras portas de entrada, mas Brocka pede outra atenção: os seus filmes não procuram apenas representar uma identidade; interrogam instituições, classe social e o que as pessoas fazem para caber num mundo desenhado por outras.



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