Entre os vencedores do Queer Lisboa 30, Corren las Liebres merece uma leitura própria porque parte de uma personagem adulta que chega ao filme depois de uma década de prisão. Noa, mulher trans cigana de 48 anos, tenta reconstruir a vida quando sai em liberdade.
O prémio
O palmarés oficial do festival atribuiu a Corren las Liebres, de Lorena Ros, o prémio de Melhor Filme na competição de documentários. A obra é espanhola, de 2025, e tem 71 minutos.
Num festival com 67 sessões e mais de 11.500 espectadores, o prémio coloca o filme dentro de uma edição particularmente concorrida. Ainda assim, a razão para lhe dedicar um artigo separado não é o tamanho do evento: é o cruzamento muito específico de idade, identidade trans, pertença cigana, prisão e reintegração.
Uma história sobre recomeçar aos 48
Representações trans em cinema são frequentemente associadas à juventude, descoberta de identidade ou início de transição. Noa entra por outra porta: já traz décadas de vida e uma experiência de privação de liberdade. A pergunta deixa de ser “quem sou?” e passa também por “como volto a viver aqui?”.
Essa diferença altera o tipo de conflito. Habitação, trabalho, relações familiares, documentos, comunidade e estigma podem tornar-se tão narrativamente importantes quanto identidade. O interesse do documentário está precisamente em não reduzir a protagonista a uma única categoria.
Porque “trans” e “cigana” não são etiquetas decorativas
Quando duas experiências minoritárias aparecem na mesma pessoa, não se somam como duas palavras numa sinopse. Podem alterar o acesso a instituições, a forma como alguém é lido socialmente e os recursos disponíveis depois da prisão.
É uma boa razão para evitar frases universais sobre “a experiência trans”. O nosso artigo sobre direitos trans em Portugal trata do quadro português e legal; este documentário acompanha uma pessoa concreta noutro país e noutro contexto.
O título também sugere movimento sem prometer chegada
Mesmo sem transformar o nome do filme numa interpretação fechada, “Corren las Liebres” combina com uma narrativa de deslocação e sobrevivência. Noa não regressa a uma vida que ficou congelada à espera dela; regressa a relações, instituições e condições que também mudaram durante dez anos.
Isso distingue reintegração de um simples “novo começo”. Há memória, consequências e estruturas anteriores que continuam presentes. O documentário ganha força precisamente quando a reconstrução não é apresentada como uma página branca.
O que o prémio pode fazer por um documentário
Festivais funcionam também como filtros de atenção. Um prémio não garante distribuição em Portugal nem torna uma obra automaticamente melhor para todos os públicos, mas pode facilitar novas sessões, críticas e interesse de programadores.
Para quem acompanhou apenas as longas de ficção do Queer Lisboa, o palmarés de documentários é uma forma de perceber como o festival também trabalha memória, exclusão social e vidas que raramente chegam ao circuito comercial.
Fonte: Queer Lisboa — palmarés 2026.
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