Um vírus começa a transformar homens gays em heterossexuais e ameaça, literalmente, extinguir a homossexualidade. A premissa de Jim Queen é deliberadamente absurda e é exatamente por isso que consegue inverter décadas de narrativas em que a homossexualidade era tratada como doença.
O ponto de partida
Na animação francesa de 85 minutos, Jim é apresentado como um ícone sexual da cena gay parisiense. A vida muda quando contrai a “Heterose”. Quase toda a gente se afasta, exceto Lucien, um jovem que tem dificuldades em assumir-se. Os dois partem à procura de uma cura.
O filme, realizado por Marco Nguyen e Nicholas Athané, foi exibido a 25 de setembro no Queer Lisboa, integrado na secção Panorama. O elenco de vozes inclui Alex Ramirès, Jérémy Gillet, Shirley Souagnon, Elisabeth Wiener, Harald Marlot, François Sagat e Philippe Katerine.
A piada funciona porque troca o sentido histórico
Durante muito tempo, instituições médicas e sociais trataram homossexualidade como patologia. Jim Queen pega nessa memória e faz a inversão: neste universo, a transformação indesejada é tornar-se heterossexual e a comunidade procura uma cura.
Não é preciso ler a comédia como tese académica. O mecanismo é simples e visual: o espectador reconhece imediatamente a lógica de histórias sobre contágio e percebe o desconforto quando ela é aplicada ao que a sociedade costuma apresentar como “normal”.
Há também uma história sobre assumir-se
Lucien impede que a premissa fique apenas no gag. Enquanto Jim enfrenta a perda de identidade social provocada pela Heterose, o jovem lida com o processo oposto: aceitar e tornar visível uma orientação que já existe.
Esse contraste permite que o filme coloque no mesmo percurso duas experiências: medo de perder uma identidade e medo de a assumir. São conflitos diferentes, mas ambos dependem da relação com a comunidade.
A escolha de Paris também não é neutra
A personagem principal é apresentada como figura da cena gay parisiense, o que dá à história um espaço social reconhecível: bares, fama dentro de uma comunidade, seguidores e códigos próprios. A ameaça da “Heterose” não altera apenas desejo; altera a posição de Jim dentro dessa rede e a forma como os outros o reconhecem.
É essa dimensão comunitária que impede a premissa de funcionar apenas como piada médica. Se a identidade de Jim também depende das relações que construiu, transformar-se significa perder referências, estatuto e linguagem partilhada.
Animação queer continua a ser um espaço pouco óbvio
Quando pensamos em cinema gay, é fácil cair no drama romântico ou no coming of age. Jim Queen escolhe animação adulta, comédia e ficção absurda. Essa escolha alarga o tipo de obra que cabe numa programação queer.
Se queres contrastar com histórias mais realistas, vê O Teu Nome Gravado em Mim ou a história de Bayard Rustin. Nenhum deles poderia trocar de forma com Jim Queen sem perder completamente o sentido.
Fonte: Queer Lisboa — ficha oficial de Jim Queen.
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