Um slasher sobre uma realizadora que tenta ressuscitar uma saga de terror podia viver apenas de nostalgia. Teenage Sex and Death at Camp Miasma escolhe outra direção: usa o próprio mecanismo do género para falar de desejo, identidade, fandom e da forma como histórias antigas são reconstruídas por novas gerações.
Da sessão esgotada para as salas portuguesas
O filme de Jane Schoenbrun teve uma sessão especial no Queer Lisboa a 19 de setembro, no Cinema São Jorge. A página oficial do festival assinalou a sessão como esgotada e confirmou a estreia comercial em Portugal a 24 de setembro de 2026. Isso significa que, ao contrário de muitos títulos de festival que desaparecem depois de uma única exibição, este ficou acessível no circuito português imediatamente a seguir.
A longa tem 112 minutos e junta Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Amanda Fix, Arthur Conti, Eva Victor, Zach Cherry e Sarah Sherman. É uma coprodução dos Estados Unidos e Canadá e chega com legendas em português.
Porque é que o rótulo “terror queer” aqui faz sentido
A premissa acompanha uma jovem realizadora encarregada de recuperar o franchise fictício Camp Miasma. Ao visitar a protagonista do filme original, as duas entram num território de desejo, medo e delírio. O Queer Lisboa classificou a obra com temas lésbicos, trans, mistério e comédia, portanto a leitura queer não depende de procurar subtexto onde ele não existe: faz parte da própria apresentação do filme.
Schoenbrun já tinha trabalhado identidade, adolescência e relação entre realidade e ficção em I Saw the TV Glow e We’re All Going to the World’s Fair. Camp Miasma prolonga essa linha, mas através da linguagem física do slasher: lago, sangue, culto de fãs e a ideia de uma personagem que se recusa a ficar presa ao papel que lhe deram.
Não é preciso ser fã de terror para perceber o interesse
O ponto mais curioso pode estar na pergunta por trás do filme: quem tem o direito de recontar uma história? Um franchise antigo pertence à atriz que lhe deu rosto, aos fãs que o transformaram em culto ou à realizadora que o quer reinterpretar? Essa disputa combina bem com o modo como muitas obras queer revisitadas hoje ganham significados que não tinham espaço para assumir décadas atrás.
Para comparar com outros tipos de representação LGBTQIA+, vê cinco filmes queer com abordagens muito diferentes e o artigo sobre O Teu Nome Gravado em Mim, onde o contexto é romance, religião e memória em Taiwan, não terror.
Um lançamento particularmente bem colocado no calendário
A estreia no final de setembro deixa o filme disponível precisamente quando começa a época em que o terror regressa ao centro da programação cultural. Aqui, porém, a novidade não é apenas ter personagens queer num slasher: é usar o próprio género para questionar quem é lembrado, quem é reescrito e quem decide o que sobrevive.
Fonte: Queer Lisboa — ficha oficial do filme.
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