Os algoritmos de chats e apps não inventaram a pressão estética, mas podem transformá-la numa rotina de comparação. Fotografias escolhidas, distância, filtros e respostas rápidas criam uma sensação de avaliação contínua. O problema não é gostar de corpos; é começar a usar a resposta de um ecrã como medidor do teu valor.

O algoritmo mostra uma amostra, não a realidade

Uma grelha de perfis não é uma amostra neutra da população. Fotografias são selecionadas, ângulos são escolhidos e alguns utilizadores publicam mais do que outros. O artigo sobre localização e privacidade nas apps mostra como até a proximidade geográfica é uma informação processada pelo sistema; a mesma lógica aplica-se à forma como a imagem de uma pessoa é apresentada.

A investigação sobre amizades e satisfação com a vida mostra que relações de apoio têm peso relevante no bem-estar, e não apenas a avaliação de atratividade. Num estudo com 25.185 participantes, a satisfação com amizades foi importante para a satisfação com a vida em diferentes grupos de orientação sexual e género.

Cria distância entre autoestima e métricas

Experimenta três mudanças concretas: não verificar a app logo depois de publicar uma fotografia; desligar notificações que transformam cada mensagem num evento; e manter atividades presenciais onde o teu corpo não é apresentado como produto. Uma caminhada, treino, leitura ou jantar não precisa de produzir 'likes' para ter valor.

Escolhe fotografias que representem, não que provem

Uma fotografia pode mostrar como te vês num determinado dia. Não precisa de provar juventude, musculatura ou disponibilidade sexual. Se percebes que editas imagens para obter uma reação específica, faz uma experiência: durante uma semana, usa uma fotografia honesta e observa menos a contagem de respostas.

Para quem quer sair da lógica de catálogo, conhecer homens para além das aplicações apresenta alternativas como atividades culturais, associativismo e grupos desportivos. A ideia não é abandonar a tecnologia, mas impedir que um algoritmo se transforme no espelho principal da autoestima.

Há ainda uma diferença entre escolher uma fotografia que gostas e escolher uma fotografia para provocar uma reação. Se percebes que a segunda situação domina, experimenta publicar menos e conversar mais. Também podes ocultar contagens, reduzir o tempo diário da app ou fazer períodos sem swipe. Estas medidas não são uma rejeição da tecnologia; são uma forma de recuperar a decisão sobre quando queres ser avaliado e quando queres simplesmente estar com outras pessoas.

Quando reduzes a comparação, não precisas de abandonar a app. Podes continuar a usá-la como um canal entre vários, em vez de a transformar num boletim diário sobre o teu corpo.

Se o corpo começa a parecer um projeto que precisa de manutenção constante para merecer atenção, faz uma pausa na lógica de otimização. Relações presenciais, hobbies e trabalho também são fontes de identidade. A aparência é uma dimensão da pessoa, não a soma dela.

Investigação relacionada com amizade e bem-estar: estudo sobre amizade próxima e satisfação com a vida.


Outros artigos:

Chat gay para amizades sem pressão: limites, interesses e ritmo da conversa

Chat gay para maiores de 40: conhecer homens da mesma geração

Chat gay para maiores de 30: fase de vida, afinidades e conversa

O homem gay tornou-se uma marca nas redes sociais?

Chat Gay Lisboa: conhecer homens para além das apps e dos matches