Há uma diferença importante entre descobrir que o teu marido procurou homens e descobrir o que ele próprio entende sobre esse comportamento. A primeira informação é sobre uma ação; a segunda é sobre o significado que ele lhe atribui. Misturar as duas pode transformar uma conversa difícil numa tentativa de diagnóstico.

A investigação sobre homens que se identificam como heterossexuais e têm relações sexuais com homens existe precisamente porque identidade, atração e comportamento nem sempre coincidem. Um estudo qualitativo entrevistou 21 homens que se identificavam como heterossexuais e tinham tido pelo menos um encontro sexual com outro homem no ano anterior; 28,6% dos participantes estavam casados. O estudo procurou perceber como esses homens davam significado aos encontros sem abandonar necessariamente a identidade heterossexual. Ver o estudo no PubMed.

O que podes saber e o que não podes concluir

Saber que um homem procurou sexo com homens permite dizer que existiu um comportamento sexual com outro homem. Não permite, por si só, escolher entre “heterossexual”, “bissexual”, “gay” ou outra palavra. A American Psychological Association distingue orientação sexual, identidade e comportamento e nota que algumas pessoas têm experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo sem se identificarem como gays ou bissexuais. A explicação da APA sobre orientação sexual faz essa distinção de forma explícita.

Também não é necessário transformar a situação numa conta de percentagens. Um homem pode sentir atração por mulheres e por alguns homens, pode ter desejo sexual sem desejar uma relação com homens, ou pode estar ainda a encontrar uma linguagem que faça sentido para si. O comportamento observado é uma peça da história, não a história inteira.

Quatro perguntas diferentes para uma mesma situação


Estas perguntas não são equivalentes. A resposta a uma não determina automaticamente as outras três.

Quando a questão principal passa a ser a confiança

Para o parceiro ou parceira, pode ser menos importante encontrar imediatamente um rótulo e mais importante perceber o que aconteceu. Se havia um acordo de exclusividade e esse acordo foi quebrado, existe uma questão relacional concreta independentemente da identidade sexual do marido.

Da mesma forma, se ele diz que é heterossexual, essa autodefinição merece ser ouvida sem obrigar a outra pessoa a fingir que o comportamento não aconteceu. É possível manter as duas informações na conversa: “tu identificas-te de uma determinada forma” e “houve um comportamento que precisamos de compreender”.

O artigo do blogue sobre discrição e identidade pública aborda outro lado desta questão: conhecer homens pode envolver diferentes graus de exposição e não obriga automaticamente a uma identidade pública.

O que uma conversa útil procura esclarecer

Em vez de começar por “então afinal és gay?”, uma conversa pode começar por perguntas mais verificáveis: “Já aconteceu antes?”, “O que procuravas?”, “Queres continuar a procurar homens?”, “Havia alguma regra do nosso relacionamento que entendeste de outra maneira?” e “O que precisas de conseguir dizer-me para podermos decidir o que fazemos agora?”.

Se houver risco de infeções sexualmente transmissíveis por contactos fora da relação, essa é outra conversa concreta, separada da discussão sobre identidade. A sexualidade não precisa de ser resolvida numa noite para que os acordos de saúde sexual sejam revistos agora.

No fim, “o que significa?” pode ter mais de uma resposta. Pode significar desejo por homens, exploração, uma identidade que está a mudar, uma identidade que permanece heterossexual ou simplesmente uma parte da sexualidade que o próprio homem ainda não sabe nomear. O dado mais sólido é aquilo que ele sente, faz e consegue explicar sobre si — não o rótulo que outra pessoa lhe atribui.

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