Abres o feed e parece que toda a gente tem abdominal, férias marcadas, casa bonita, roupa certa, vida sexual ativa e luz de fim de tarde disponível vinte e quatro horas por dia. Depois sais à rua e encontras pessoas normais. A contradição tem uma explicação simples: aquilo que aparece mais não é necessariamente aquilo que existe mais.

O feed não é uma amostra representativa da comunidade

Redes sociais ordenam conteúdo para manter atenção, não para produzir um retrato estatístico dos homens gay. Conteúdo visualmente forte, aspiracional, polémico ou altamente reconhecível tende a circular melhor do que uma terça-feira banal. Por isso, usar o feed para responder “como são os gays?” é como usar anúncios para responder “como vivem os portugueses?”.

O efeito importa porque a comparação não precisa de ser consciente. Um estudo com 2.733 homens de minorias sexuais na Austrália e Nova Zelândia encontrou associações pequenas, mas positivas, entre uso de redes sociais e insatisfação corporal, sintomas de perturbações alimentares e pensamentos sobre uso de esteroides anabolizantes. As associações com insatisfação muscular e sintomas alimentares foram mais fortes em plataformas centradas em imagem.

Até o conteúdo “positivo” pode continuar a ser comparação

Em 2025, um estudo acompanhou 530 homens de minorias sexuais recrutados através do Grindr durante uma semana. A simples exposição a conteúdo de body positivity não melhorou significativamente satisfação corporal ou humor. Mais interessante: quando os participantes se comparavam com esse conteúdo, a associação era com menor satisfação corporal e pior humor.

O resultado não significa que body positivity faça mal a toda a gente. Mostra algo mais específico: mudar o tipo de corpo no ecrã não elimina automaticamente o mecanismo de comparação.

“Gay comum” não é uma categoria — e talvez seja esse o ponto

Não existe um homem gay médio que represente a comunidade. Há homens musculados e sedentários, extrovertidos e tímidos, ricos e endividados, urbanos e rurais, casados e solteiros. A pressão nasce quando um subconjunto muito visível parece funcionar como requisito de entrada.

Uma revisão sistemática publicada em 2022 reuniu 136 estudos sobre imagem corporal em homens de minorias sexuais. Encontrou, de forma geral, mais preocupações com imagem corporal do que entre homens heterossexuais, embora os resultados variassem conforme a dimensão analisada. Entre os fatores estudados estavam ideais de aparência, objetificação, identificação com a comunidade gay, discriminação e estigma.

Perfeição e visibilidade não são sinónimos

O artigo sobre corpo perfeito gay e pressão para estar musculado aprofunda o ideal físico. Aqui a pergunta é mediática: porque é que certos corpos e estilos de vida parecem ocupar tanto espaço no nosso campo visual?

Uma resposta prática é diversificar deliberadamente aquilo que segues. Não para construir outro feed “perfeito”, mas para introduzir ruído na amostra: idades diferentes, corpos diferentes, profissões comuns, humor, cultura, política, hobbies, pessoas que não transformam o corpo no assunto central.

O homem que não publica também existe

Há ainda uma população invisível ao algoritmo: quem publica pouco, quem tem conta privada, quem não fotografa o treino, quem viaja sem fazer reels, quem namora sem anunciar e quem simplesmente não gosta de redes. Essas pessoas não são exceções só porque aparecem menos.

Se queres encontrar conversa menos dependente de imagem, o artigo sobre sala pública, feed e grelha ajuda a perceber como o formato altera aquilo que vemos primeiro.

Talvez os “gays comuns” estejam exatamente onde sempre estiveram. O que mudou foi a montra. E uma montra, por definição, escolhe o que põe à frente.

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