Para perceber por que razão o encontro em espaço público existiu com a escala que teve, é preciso lembrar o que havia antes. Em Portugal, durante décadas, não havia bares, não havia associações e não havia forma de duas pessoas se encontrarem sem que alguém soubesse. O espaço público era o que restava.

Uma prática que existiu por ausência de alternativa

Antes de 1974, e ainda durante bastante tempo depois, a vida social gay em Portugal não tinha lugares próprios. Não é uma questão de gosto por espaços abertos: é o resultado direto de não existirem espaços fechados onde fosse seguro estar.

Os pontos de encontro fixaram-se por características práticas — zonas com passagem, com penumbra, com várias saídas, e com uma população flutuante que tornava qualquer pessoa anónima. Jardins, estações, certas ruas. A geografia não foi escolhida: foi o que funcionava.

O que a Internet mudou de facto

Mudou o mais importante: passou a haver conversa antes. Isso alterou o risco de sítio, e vale a pena ser claro sobre a troca.

Ganhou-se em segurança física — o local passa a ser escolhido, há tempo para decidir e é possível confirmar quem é a pessoa. Perdeu-se em exposição: passa a existir um rasto escrito, fotografias trocadas e, muitas vezes, uma mudança para aplicações que mostram o número de telefone.

Quem diz que a Internet acabou com o cruising simplifica. Reduziu-o muito, deslocou-o, e criou uma categoria nova que não existia — o encontro combinado à distância, que não é bem uma coisa nem a outra.

O que a lei portuguesa considera

Ser-se gay não tem, há muito, qualquer relevância jurídica em Portugal, e a discriminação por orientação sexual é proibida por lei. Mas atos sexuais praticados em local público, ou com visibilidade para o público, podem constituir crime — e isso aplica-se a toda a gente, independentemente de quem esteja envolvido e de haver consentimento entre os envolvidos.

Um parque, um parque de estacionamento ou uma zona de mato junto a uma estrada são locais públicos para este efeito. O facto de estarem desertos num dado momento não altera a natureza do local.

Riscos que continuam iguais

  • Isolamento. Locais afastados são afastados também para quem precisa de ajuda. Pode não haver rede e pode não passar ninguém.
  • Agressão dirigida. Há registo, em vários países, de ataques planeados a locais conhecidos precisamente por serem conhecidos e por as vítimas terem menos probabilidade de denunciar.
  • Extorsão. Ameaçar divulgar é crime e deve ser denunciado. Ceder alimenta.

Saúde: o acesso é gratuito e anónimo

O rastreio de VIH e de outras infeções sexualmente transmissíveis é gratuito e anónimo nos CAD — Centros de Aconselhamento e Deteção Precoce — sem necessidade de encaminhamento médico, e vários dão resultado no próprio dia. A PrEP está disponível através do Serviço Nacional de Saúde mediante avaliação clínica.

O SNS 24 (808 24 24 24) encaminha para o serviço mais próximo.

Denunciar não é assumir-se

É a barreira que mais protege quem agride: o receio de que apresentar queixa obrigue a explicar o que se estava ali a fazer, ou a expor-se perante família e trabalho. A APAV presta apoio a vítimas de crime em todo o país, e a ILGA Portugal tem linha de apoio específica para discriminação e violência. Ambas dão informação antes de qualquer passo formal.

Sobre combinar com conversa prévia, ver a sala de cruising.

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