Há notícias que levantam dúvidas táticas. Esta levanta outra pergunta, igualmente urgente para uma parte muito específica do público: se Cristiano Ronaldo deixar mesmo a Seleção, quer dizer que já não vamos poder admirar aquelas pernas de calções vermelhos?

Calma. Ainda não é altura de fazer um minuto de silêncio pelos quadríceps mais famosos do futebol português.

Cristiano Ronaldo deixou o estágio da Seleção Nacional em Copenhaga a 30 de setembro, antes do encontro com a Dinamarca. A saída aconteceu depois de dias marcados por notícias sobre tensão entre o capitão português e o selecionador Jorge Jesus. Segundo a Reuters, Ronaldo comunicou que tinha falado com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, antes de tomar a decisão e prometeu explicar mais tarde as razões aos portugueses.

Sair do estágio não é o mesmo que despedir-se de Portugal

Este é o ponto mais importante da história. Até ao momento, Ronaldo não anunciou oficialmente o fim da carreira internacional. O que está confirmado é a saída desta concentração da Seleção. O futuro com a camisola portuguesa permanece, por isso, em aberto.

A distinção importa porque algumas manchetes começaram imediatamente a tratar o episódio como uma possível despedida. Pode vir a sê-lo, mas em 1 de outubro essa conclusão ainda não foi confirmada pelo próprio jogador nem pela Federação.

Ronaldo tem 41 anos e continua a ocupar um lugar difícil de comparar na história da equipa nacional. A UEFA contabiliza 233 internacionalizações por Portugal e 146 golos, números que o mantêm como recordista mundial entre jogadores masculinos em jogos internacionais e como melhor marcador europeu de seleções.

Mas podemos falar das pernas por um minuto?

Há quem veja um jogo de Portugal e repare nos movimentos sem bola. Há quem discuta se Ronaldo deve jogar de início. Há quem conte remates, golos, minutos e recordes.

E depois há aquela realização televisiva clássica: Cristiano de mãos na cintura antes de um livre, meias abaixo do joelho, calções número 7 e dois quadríceps que parecem ter contrato próprio com a Seleção.

Ao fim de mais de duas décadas, já fazem parte da paisagem futebolística portuguesa. Não é preciso transformar o assunto numa tese sociológica: o homem treinou o corpo durante uma carreira inteira e muita gente reparou.

A relação entre corpo masculino, exposição e olhar público não existe apenas no futebol. Já falámos no ChatGay.pt sobre como a aparência ganha peso na forma como homens se apresentam nas redes sociais e sobre as dinâmicas de corpo e masculinidade em ambientes de ginásio. Ronaldo é quase a versão planetária desse fenómeno: desempenho desportivo e imagem física tornaram-se inseparáveis da personagem pública.

Uma ausência que se nota antes mesmo da despedida

Para quem cresceu a ver Portugal desde os anos 2000, uma convocatória sem Ronaldo ainda parece estranha. Ele estreou-se pela Seleção principal em 2003. Desde então atravessou várias gerações de jogadores, treinadores, Europeus e Mundiais.

É isso que torna a saída do estágio tão simbólica. Mesmo sem existir ainda uma reforma oficial, basta Ronaldo abandonar uma concentração para surgir imediatamente a pergunta sobre se estaremos a assistir ao início do fim.

E, claro, cada público processa essa possibilidade à sua maneira. Uns pensarão nos golos. Outros no Euro 2016. Outros no famoso “Siuuu”. Nós permitimo-nos acrescentar ao arquivo histórico os calções curtos e aquelas pernas absolutamente incapazes de passar despercebidas.

Então já não podemos admirar as pernas de Cristiano Ronaldo?

Ainda não arrumem os binóculos.

A 1 de outubro de 2026, o cenário confirmado é este: Cristiano Ronaldo saiu do estágio, não estará no jogo seguinte e prometeu explicar a decisão. O que não existe, por enquanto, é um anúncio definitivo de retirada da Seleção.

Se este episódio acabar por marcar o início da despedida internacional, Portugal perderá uma presença que durante 23 anos pareceu permanente. Os recordes continuarão lá. Os golos também. E haverá horas suficientes de arquivo televisivo para recordar cada livre, cada celebração e cada sprint.

Quanto às pernas? Mesmo que um dia desapareçam dos relvados da Seleção, a Internet felizmente tem memória.


Fonte principal: Reuters. Os dados de internacionalizações e golos foram confirmados pela UEFA.



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