Uma caixa de negativos pode parecer um objeto silencioso até alguém começar a revelar o que ficou lá dentro. No documentário Je veux qu’on se souvienne de nous, a fotógrafa Donna Gottschalk entrega a Hélène Giannecchini centenas de imagens nunca reveladas de pessoas queer da classe trabalhadora fotografadas desde o final dos anos 1960.
O filme começa com um gesto de confiança
A curta documental tem 26 minutos e foi exibida no Queer Lisboa a 20 de setembro, dentro da competição de curtas. Segundo a ficha do festival, Giannecchini conheceu Gottschalk em Vermont e recebeu acesso a retratos e cenas de rua que tinham permanecido fora do olhar público durante décadas.
A realizadora é escritora, curadora e investigadora com trabalho ligado à relação entre texto, fotografia, arquivos e história LGBTQIA+ da segunda metade do século XX. Isso transforma o filme em mais do que uma coleção de fotografias bonitas: há uma pergunta sobre quem conserva, organiza e contextualiza essas imagens.
Porque tantos arquivos queer são frágeis
Fotografias familiares, cartas, cartazes, panfletos, diários e negativos muitas vezes ficam em casas privadas. Quando uma pessoa morre, muda de país ou perde contacto com uma comunidade, o arquivo pode desaparecer sem nunca chegar a uma instituição.
Essa fragilidade é ainda maior quando as imagens documentam vidas que, na época, tinham razões para evitar exposição pública. O que hoje pode ser visto como património histórico já foi material potencialmente perigoso para quem aparecia nele.
Classe social muda aquilo que fica registado
A referência explícita a pessoas queer da classe trabalhadora é uma das âncoras mais interessantes do projeto. Arquivos de celebridades, artistas famosos e ativistas reconhecidos têm mais probabilidade de chegar a museus e bibliotecas. Vidas comuns deixam menos rastos institucionais.
Por isso, recuperar estas fotografias também corrige um viés: história LGBTQ+ não é apenas a história de figuras públicas. O nosso artigo sobre ativistas LGBTQIA+ menos conhecidos tenta ampliar nomes; este filme amplia pessoas que talvez nunca tenham sido nomes públicos.
Memória não é nostalgia
Preservar um arquivo serve para perceber como se vivia, trabalhava, amava e criava comunidade numa época diferente. Também permite comparar o que mudou e aquilo que continua reconhecível: gestos, amizades, festas, intimidade, medo e desejo de pertencer.
Se te interessa a dimensão cultural da memória, podes ainda ler como figuras culturais se tornam símbolos gay. Aqui, porém, o centro está no oposto da celebridade: rostos e momentos cuja importância nasce precisamente do quotidiano.
Fonte: Queer Lisboa — ficha oficial do documentário.
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