A costa portuguesa tem quase mil quilómetros e uma tradição balnear antiga, e é natural que ao longo dela se tenham fixado zonas com público próprio. Vale a pena separar duas coisas que se confundem quase sempre: praias com enquadramento legal para naturismo, e zonas que ficaram conhecidas por uso.
Designada e tolerada não são o mesmo
Portugal reconhece oficialmente praias para prática de naturismo. Nessas, o enquadramento está definido e não há ambiguidade sobre o que ali se faz.
Depois há zonas — extremos de praias longas, trechos entre rochas, áreas atrás de dunas — onde a prática se instalou por hábito, sem qualquer reconhecimento formal. Aí tudo depende do local, da época do ano e de quem lá está nesse dia. Uma lista da Internet que não faça esta distinção manda gente para situações desconfortáveis.
Convém também não confundir naturismo com procura de encontro. São públicos diferentes com expectativas diferentes, e tratar o primeiro como se fosse o segundo é a queixa mais repetida de quem frequenta praias naturistas há anos.
Como se distribuem pelo país
A geografia explica boa parte do padrão. No Algarve, várias das praias mais procuradas ficam em ilhas-barreira da Ria Formosa, acessíveis só por barco — o que impõe horários de ida e volta e torna tudo mais planeado.
Na região de Lisboa, a costa da Caparica estende-se por vários quilómetros para sul, com acesso progressivamente mais difícil à medida que se afasta da zona urbana; é essa distância que criou trechos com públicos distintos.
Mais a norte, a água é sensivelmente mais fria e a época balnear é mais curta, o que reduz a concentração de gente e torna estas dinâmicas menos visíveis.
As dunas são estrutura, não paisagem
Grande parte do litoral está classificada, e a circulação fora dos passadiços em cordão dunar pode constituir contraordenação em área protegida. A razão é física: as dunas são fixadas por vegetação que morre com pisoteio repetido, e sem ela a duna desfaz-se. Os passadiços elevados que existem em quase todas as praias portuguesas estão lá por isso.
Conhecer gente numa praia
É mais lento do que num bar e mais difícil do que num chat, por uma razão simples: não há pretexto. Ninguém está a fazer nada que dê conversa.
O que costuma funcionar é o banal — pedir para guardar as coisas enquanto se vai à água, comentar o estado do mar, perguntar as horas do último barco. E o que não funciona é aproximar-se de alguém que está deitado de olhos fechados a apanhar sol.
Sinais de recusa numa praia são não-verbais e valem por completo: virar o corpo, mudar de sítio, pôr os óculos escuros e não responder. Nenhum deles precisa de palavras e nenhum é convite a insistir.
Fotografar é o limite absoluto
Fotografar pessoas numa praia sem consentimento é inaceitável em qualquer circunstância e pode ter consequências criminais sérias. Não é preciso que alguém fique identificável para o problema existir. É também a razão número um pela qual zonas conhecidas deixam de ser frequentadas.
Antes de te deslocares
Muitas destas praias são longe de tudo: pode não haver apoio, pode não haver rede e o regresso pode depender de um barco com horário fixo. Confirmar acessos e marés antes de sair evita metade dos problemas.
Para quem prefere ir com alguém ou saber o que esperar antes, perguntar na sala do Algarve ou do distrito correspondente é mais fiável do que qualquer lista publicada há meses.
Sobre áreas protegidas e acessos, consultar o ICNF.
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