O Dia Mundial da Música celebra-se a 1 de outubro desde 1975, por iniciativa do International Music Council. É uma boa desculpa para ouvir música portuguesa — mas também para reparar em quem ajudou a alargar aquilo que podia ser dito, mostrado e vivido em palco.
Esta não é uma lista de rumores sobre a vida privada de artistas. Os quatro nomes abaixo têm uma relação pública e documentada com identidades ou expressão queer. E há uma razão para escrever LGBT+ em vez de chamar simplesmente “gay” a toda a gente: orientação sexual, identidade de género e expressão artística não são a mesma coisa.
1. António Variações: antes de “queer” entrar no vocabulário português
António Variações morreu em 1984, mas continua a parecer contemporâneo. O cabelo, a barba, a roupa, a dança e a mistura de fado, pop e música popular portuguesa criaram uma figura que não cabia facilmente nas categorias da época.
A sua vida afetiva e sexual foi durante muito tempo tratada com silêncio, insinuação ou simplificação. A biografia de Manuela Gonzaga, citada pelo Observador, aborda de forma explícita a homossexualidade do cantor e recorda que Variações chegou a falar sobre o tema em entrevistas. Outra investigação sobre a sua figura lembra uma declaração de 1983 em que defendia que a homossexualidade devia ser assumida por quem a vivia e respeitada pelos outros.
O mais interessante, quatro décadas depois, é que Variações não ficou reduzido à condição de “cantor gay”. “Estou Além”, “Canção de Engate”, “O Corpo É Que Paga” ou “É P'ra Amanhã” entraram no património pop português. A dimensão queer faz parte da história, mas não substitui a música.
2. Vaiapraia: punk queer sem pedir licença
Rodrigo Vaiapraia começou a editar música em 2013 e construiu um universo onde desejo, género, sexo, desconforto e humor aparecem sem a prudência habitual da pop portuguesa.
A própria Antena 3 apresenta o projeto como “punk rock queer, enérgico e dissidente” e destaca a forma direta como as canções abordam género e sexualidade. Em 2025, Alegria Terminal foi escolhido como Disco da Semana pela estação.
Vaiapraia é interessante precisamente porque a experiência queer não aparece como decoração de campanha de junho. Está dentro das letras, da linguagem, da estética e da maneira como o projeto pensa comunidade. Para quem associa música LGBT portuguesa apenas a grandes figuras pop, é uma porta para uma cena independente muito mais crua.
3. Filipe Sambado: identidade não-binária dentro da canção portuguesa
Filipe Sambado já tinha uma carreira reconhecida quando começou a falar publicamente da sua identidade não-binária. Essa mudança não ficou separada do trabalho: entrou na escrita, na sonoridade e na forma como passou a pensar o próprio corpo e a linguagem.
Numa entrevista à NiT, Sambado falou abertamente sobre a identidade não-binária e sobre a relação entre sexualidade, género e o álbum Três Anos de Escorpião em Touro. O disco cruza hyperpop, tradição portuguesa e canção de autor sem transformar a identidade numa nota de rodapé.
É também um bom exemplo de porque “músico gay” seria um título demasiado estreito para este artigo. Sambado pertence à paisagem LGBT+ portuguesa, mas a informação pública relevante aqui é a identidade não-binária — não uma orientação sexual que o leitor deva adivinhar.
4. Odete: música, performance e história queer
Odete trabalha entre música, performance, texto e artes visuais. Em vez de separar concerto, investigação e identidade, mistura tudo no mesmo corpo de trabalho.
Em 2026, a Galeria Municipal do Porto apresentou Sobre os Lobisomens como uma conferência musical que explora a dimensão queer da história dessas figuras. No seu catálogo musical há eletrónica, spoken word, ruído, samples e referências a arquivos LGBT e a histórias de corpos que ficaram fora da narrativa dominante.
Odete representa uma geração para quem a música queer portuguesa já não precisa de aparecer apenas como “representação” dentro da indústria tradicional. Pode construir a sua própria linguagem, circular entre galerias, clubes, festivais e espaços de performance e recusar fronteiras entre géneros artísticos.
O que mudou entre Variações e a geração atual?
O intervalo entre António Variações e artistas como Vaiapraia, Sambado ou Odete mostra uma mudança visível. Nos anos 80, a imprensa discutia homossexualidade num país que tinha acabado de descriminalizar relações entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, há artistas portugueses que usam explicitamente palavras como queer e não-binário para falar do próprio trabalho.
Isso não significa que todos tenham a mesma experiência, o mesmo público ou a mesma relação com a comunidade. Significa apenas que a música portuguesa passou a conter mais maneiras de existir em público.
Se quiseres continuar por este lado da cultura, podes ler como alguns artistas se transformam em ícones LGBT, conhecer 10 artistas que marcaram a cultura gay através da música pop ou recuar até à história da comunidade gay portuguesa.
O próprio International Music Council explica que o Dia Internacional da Música nasceu para promover a arte musical entre diferentes setores da sociedade e incentivar a troca entre culturas. Quase cinquenta anos depois da primeira edição, ouvir estas vozes também é uma forma de perceber como essa diversidade passou a soar em português.
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