A maior parte dos conselhos sobre encontros seguros resume-se a «confia no teu instinto». É pouco útil, porque o instinto avalia mal quem já se simpatiza. O que funciona é ter decidido certas coisas antes, quando ainda não há investimento emocional nenhum.
Primeiro: confirmar que a pessoa é quem diz
Não é desconfiança, é procedimento. Duas formas simples, por ordem de eficácia:
- Uma chamada de vídeo curta. Dois minutos chegam. Quem tem fotografias de outra pessoa não sobrevive a isto, e quem é quem diz não se importa.
- Uma fotografia com um pormenor pedido por ti. Não uma qualquer — uma tirada agora, com algo específico que tenhas indicado.
A recusa a qualquer das duas não prova nada de mal. Mas a recusa acompanhada de irritação, pressa ou acusação de desconfiança é, essa sim, informação.
Segundo: o primeiro encontro é em público
Café, esplanada, jardim, uma rua com gente. Nunca em casa — nem na tua, nem na dele — por muito que já se tenha falado durante semanas.
Este é o ponto onde há mais cedências, e é o que mais protege. Um encontro em público permite ir embora ao fim de dez minutos sem que isso seja uma cena.
Terceiro: escolher o local tu
Um sítio que conheces dá-te vantagem prática: sabes onde é a saída, sabes como se volta e sabes se costuma ter gente àquela hora. Aceitar um local que não conheces, escolhido pela outra pessoa, tira-te tudo isso ao mesmo tempo.
Quarto: o regresso planeia-se antes
É a parte que quase toda a gente esquece e é a que mais decisões estraga. Em Lisboa e no Porto, o metro encerra por volta da uma da manhã. Depois disso o transporte é táxi, e quem não contou com isso vê-se sem alternativa fácil.
Ficar por não haver como voltar é a forma mais comum de acabar num sítio onde não se queria estar. Saber de antemão como se volta é uma decisão de segurança, não de conforto.
Quinto: alguém tem de saber
Uma mensagem a um amigo com o sítio e a hora. Não é preciso explicar contexto nenhum, e não é dramatismo — é o que qualquer pessoa faz antes de uma viagem.
Se não houver a quem dizer, uma nota com a mesma informação deixada num sítio óbvio cumpre parte da função.
Sinais de alarme antes de sair de casa
- pressão para mudar de plataforma cedo, sobretudo para uma que mostre o número de telefone;
- insistência na tua morada antes de haver qualquer encontro;
- reação negativa a perguntas simples sobre o local ou a hora;
- histórias que mudam entre conversas;
- pressa desproporcionada — querer encontro na primeira hora de conversa;
- qualquer pedido de dinheiro, seja com que enquadramento for.
Durante: continuas a poder mudar de ideias
Ter combinado não obriga a nada, e isso mantém-se depois de já se estar lá. Sair ao fim de cinco minutos é uma opção legítima que não precisa de justificação. Se a outra pessoa reagir mal a essa possibilidade — mesmo só verbalmente — é o momento de não avançar.
Se correr mal
Situações de violência ou coação devem ser comunicadas às autoridades. A ILGA Portugal tem linha de apoio para vítimas de discriminação e violência, e a APAV presta apoio a vítimas de crime em todo o país. Denuncia no chat no próprio momento: como não há histórico guardado, depois não há registo para consultar.
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