A ideia habitual de discrição é não dizer nada. Não funciona: uma pessoa que não diz nada não tem conversa nenhuma, e acaba por dizer tudo de uma vez a alguém em quem confiou depressa de mais. Discrição útil é outra coisa — é saber quais são os detalhes que somam.
Como se identifica alguém sem nunca lhe perguntar o nome
Cada detalhe sozinho é inofensivo. O problema é a interseção.
Dizer o distrito não identifica ninguém. Acrescentar a profissão reduz a algumas centenas de pessoas. Acrescentar a idade aproximada reduz a algumas dezenas. Acrescentar que se treina num ginásio ao fim do dia e que se tem um cão de determinada raça reduz, numa cidade pequena, a uma ou duas.
Nenhuma destas frases parece perigosa quando é dita. O risco está em serem ditas todas — muitas vezes em conversas diferentes, à mesma pessoa, ao longo de semanas.
Os detalhes que mais estreitam
- Profissão específica. «Trabalho num banco» é vago; «sou o técnico de raio-X do hospital» identifica.
- Rotinas com hora. Dizer a que horas se sai de casa todos os dias é diferente de dizer que hoje se está livre.
- Sinais físicos permanentes. Uma tatuagem invulgar, uma cicatriz — funcionam como identificador para quem já te viu.
- Carro. Marca, modelo e cor, numa vila, valem por um nome.
- Contexto familiar. Número e idades de filhos é dos dados que mais estreitam.
O que dizer em vez de não dizer nada
Substituir precisão por categoria mantém a conversa e tira o risco. «Trabalho por turnos» diz o suficiente sem dizer onde. «Sou do interior norte» dá contexto sem dar concelho. «Tenho filhos» chega, sem idades.
O objetivo não é ser evasivo — é ser genérico nos dados e específico nas opiniões. As pessoas ligam-se a opiniões, não a coordenadas.
Fotografias: o fundo importa mais do que a cara
Uma fotografia sem cara pode identificar melhor do que uma com cara, se tiver um pormenor reconhecível: uma vista de janela, um azulejo, um uniforme, um crachá, a matrícula ao fundo.
Convém saber ainda que imagens tiradas com telemóvel podem levar informação incorporada, incluindo localização, conforme as definições do aparelho. E que, uma vez enviada, uma fotografia deixou de estar sob o teu controlo — não há definição de privacidade que impeça uma captura de ecrã.
A mudança de plataforma é o ponto crítico
A conversa começa anónima e passa a identificada no momento em que se muda para uma aplicação de mensagens que mostra o número de telefone. Um número liga-se a um nome com facilidade.
Se essa mudança acontecer, que seja uma decisão pensada e não um passo automático a meio de uma conversa que está a correr bem.
A parte que a plataforma resolve
Sem aplicação instalada não há ícone no telemóvel. Sem notificações não aparece nada no ecrã com o telemóvel em cima da mesa. Sem email não chega correio à caixa de entrada. E o endereço apaga-se do histórico do browser como o de qualquer site.
Isto trata do rasto no aparelho. O rasto na conversa é o que continua a depender de ti — ver a sala de discretos e anónimo.
Se alguém ameaçar divulgar
Extorsão é crime e denuncia-se, mesmo que implique explicar o contexto. Ceder não resolve — costuma aumentar os pedidos. A APAV apoia vítimas de crime em todo o país e a ILGA Portugal tem linha de apoio própria.
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