Há uma frase que aparece muito nas salas e quase nunca resulta: «procuro só amizade». O problema não é a intenção, é que a frase não dá a ninguém nada a que responder. Diz o que não queres, não diz quem és.

O interesse comum é o que substitui a fotografia

Numa aplicação de encontros, o que faz alguém parar é a imagem. Numa sala de conversa não há imagem à entrada — o que faz alguém parar é reconhecer-se em qualquer coisa que escreveste.

Por isso, «gosto de música» não serve e «ando há duas semanas a tentar acabar um álbum dos Talking Heads e não consigo passar do terceiro tema» serve. O segundo é específico o suficiente para alguém discordar, concordar ou perguntar. O primeiro não é nada.

Três formas de introduzir um interesse sem parecer entrevista

  • Pelo que estás a fazer agora. «Estou a montar uma estante e já percebi que faltam parafusos» abre conversa melhor do que uma lista de hobbies.
  • Por uma opinião assumida. Dizer que achaste uma série sobrevalorizada convida a resposta. Dizer que gostas de séries não.
  • Por uma pergunta que só tu farias. Perguntar a uma sala inteira onde é que se arranja bom pão numa cidade dá mais conversa do que perguntar «tudo bem?».

As salas temáticas já fazem metade do trabalho

Entrar numa sala organizada por afinidade poupa a fase de descobrir o que se tem em comum, porque parte dela já está resolvida à entrada. As de amizades, maduros e ursos juntam pessoas por interesse ou fase de vida, não por proximidade geográfica.

A sala de amizades tem, aliás, uma característica que a distingue das outras: é a que tem as conversas mais longas do site, porque as pessoas que lá estão não têm objetivo de encerrar a conversa com um encontro.

Repetir a hora vale mais do que repetir a mensagem

A amizade precisa de reencontro, e o reencontro precisa de previsibilidade. Quem entra sempre por volta da mesma hora acaba por cruzar-se com as mesmas pessoas e, ao fim de uma ou duas semanas, deixa de ter de se apresentar.

É a diferença mais concreta entre procurar amizade e procurar encontro: o encontro procura-se com alcance, a amizade com regularidade.

O que trava as amizades antes de começarem

Três coisas, por ordem de frequência:

  • Passar a privado cedo de mais. A conversa coletiva é o que permite ter três ou quatro pessoas a acompanhar o mesmo assunto. Fechar num privado ao fim de duas mensagens fecha isso.
  • Transformar a conversa em interrogatório. Idade, zona, altura, o que procuras — quatro perguntas seguidas soam a triagem, não a interesse.
  • Desistir ao terceiro dia. Uma sala tem dias mortos. Não é um sinal sobre ti.

Amizade e engate na mesma sala

Convivem, e é normal alguém entrar com uma intenção e mudar de ideias. O que não é normal é insistir depois de ouvir que não há interesse. Um «não procuro isso» é resposta completa e não precisa de justificação; se a insistência continuar, bloquear e denunciar é o caminho, sem dar explicações.

Para quem procura convívio presencial além da conversa online, a ILGA Portugal divulga grupos e atividades comunitárias em várias zonas do país.

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